domingo, 9 de janeiro de 2011

Fernanda Carvalho - Jéssica Velázquez


Enfermeira por necessidade, escritora marginal por impulso e freqüentadora assídua do "Barco Verde" por solidão. Era sempre assim: acabou o plantão?

- Green Boat, here i come.

E lá sempre tomava seu dry martini sossegada no canto esquerdo do balcão. Ficava lembrando de suas pacientes e quando percebia que já misturava paciente com personagem, ia para seu apartamento, escrevia um pouco e dormia. Iam-se meses nessa rotina hospital-martini-literatura-sonhos-hospital, desde quando resolveu finalmente morar sozinha e sair da tutela ditatorial de sua mãe e seu "homem" (fuck you!). Mas às vezes (por diversas vezes) a rotina se misturava e Fernanda era pega lendo para pacientes, fazendo curativos em garçons ou mesmo bebendo na cama...

- Martini is the work of God - arranhava seu inglês, rindo e levantando a taça para brindar com a imagem de Santa Ágata que tinha numa moldura.

Evidentemente que a imagem daquela jovem de 30 anos vestida de branco naquele bar, freqüentado por transeuntes inimagináveis do boêmio bairro do Barris, não passava desapercebida. O garçom já a conhecia, mas o público rotativo (na sua maioria, homens) não e sempre a perturbavam, mesmo que fosse somente com os olhares.

Naquele dia, Fernanda saiu do plantão às 22h e foi tomar seu dry martini, com a estória de Jéssica na cabeça, uma menina que aprendeu a voar para encontrar Deus e pedir explicações. Na quinta dose:

- Olá, meu nome é Jéssica, estava ali te admirando e resolvi ousar, trouxe uma dose para bebermos juntas, posso?

Fernanda não sabia se estava sonhando, escrevendo ou no "Barco Verde" e tomou a dose de "boa noite cinderela".

domingo, 21 de novembro de 2010

Maria da Anunciação – Fernanda Carvalho

“Tanto medo, tanta dor, pouco a se fazer quando não se pode falar. Minha vida tá na metade, a história só se dá pela escrita... Sou um pedaço de nada atraente... dois anos sendo atração do circo midiático. Estou novamente no hospital, o médico disse que essa seqüência de cirurgia diminuiria as dores nas costas... Procuro um sentido pra isso tudo, como procuro lembrar daquele beijo estranho... Acredito que foi aquele beijo o Salvador... Acredito mais em Deus agora tanto quanto duvido... o silêncio que cresce cada vez mais, acelera o curso da dor pelo meu corpo, acelera essa falta de esperança e confiança que algum dia serei o que seria... apenas dói ...”

- Bom dia Maria! Vamos pro exame? – O sorriso amável acompanhava a enfermeira – Trouxe o livro que conversamos ontem pra você ler, ok?

Maria pegou o livro, olhou a capa toda linda, ela não era mais... Após o exame abriu o livro e percebeu que dentro havia um recado amarelado e bem antigo...