Patrício Vilas Boas – Judith P. Alves

Patrício era considerado por todos na corporação como “o delegado exemplar”. Ainda novo, fez um caminho relâmpago entre sua formação, o concurso e o posto assumido. Tinha a justiça como seu lema e para ele a pior espécie de marginal era aquele policial, que usa a justiça, para cometer injustiça. Abominava qualquer tipo de corrupção. Seu sonho era trabalhar na corregedoria.

- O que foi isso no seu rosto? – perguntou já sabendo que havia sido mais uma atitude do veterano Jota – Me diga, ele não é tão poderoso, posso pegá-lo se você con...

- Quem matou Aline não fui eu, foi uma prostituta que freqüenta a avenida litorânea conhecida como Tissou, foi a mando do dep. Geraldo Lima, porque ela estava investigando um caso de corrupção policial e envolvimento com o tráfico e o deputado é o grande comandante desse esquema... eu sei de tudo e estou disposto a falar – Dorival interrompeu de forma serena o delegado.

- Você não sabe de nada meu caro... ou melhor, sabe apenas a peça que falta para completar nosso quebra-cabeça... Aline não era jornalista como todos afirmam e ela se envolveu com você e com esse sujeito que acabou de te espancar por que fazia parte da investigação... você é apenas um ferrolho dessa engrenagem... nós sabemos de tudo... sabemos como o deputado te abandonou... sabemos que aquele seu suposto amigo, um dos nossos, o Antônio, te pressionou te acusando, justamente para você falar mais....

- Mas vocês não sabem quem a matou e não sabem como pegar Jota... – Dorival fala com a voz trêmula, não acreditando que o amor de Aline era um jogo policial.

- Quase.... sabemos quem matou, foi a Tissou sim, ou melhor, Ângela, temos um agente disfarçado de andarilho, mendigo de rua, que seguia cada passo da Aline, ficava pela área observando tudo, cercando as ações “filantrópicas” do deputado... você sabe do que estou falando, né? Aquelas Kombis lotadas de drogas e “comidinhas para os pobres”... e Arlindo viu tudo e é uma testemunha inconteste (embora tenha ficado meio perturbado com esse trabalho – pensou Patrício)... aliás, a tal da Tissou também está nas nossas mãos (risos irônicos, lembrando de Judith)... só não a pegamos antes, porque precisávamos fechar o quebra-cabeça no Jota e você vai fechar... ou melhor, você fechou... você e alguns capangas dele, que já estão do nosso lado... até o deputado só está livre como uma isca... o Jota, irá cometer seu grande deslize e irá agora lá, no endereço que você deu a ele...

- Como você sabe? – Dorival ainda falando, boquiaberto, sem acreditar em todas essas revelações.

- Você acha que deixo ele se achar mais esperto que todos porquê? Eu sabia que ele iria te pressionar e você contaria... a essa altura, uma das nossas já está o seguindo...

Jorge José Jimenez "o Jota" - Patrício Vilas Boas

Entraram no carro e o silêncio foi pairando no trajeto... Jota encarava Dorival com um ar diferente... os colegas percebiam mas nenhum ousava comentar... Chegando na Delegacia entraram pelos fundos e o Delegado Patrício já avisado, se encontrava a espera, mas Jota tinha outros planos.

- Deixa ele comigo uns vinte minutos – falou segurando Dorival pelas algemas.

O colega não ousaria retrucar e foi dar o aviso a Patrício... Puxando o suspeito cada vez mais forte pelo braço colocou em uma sala no subsolo da delegacia onde só constava uma cadeira. Sentou o acusado e prendeu seus braços atrás da cadeira com a ajuda de uma algema extra... o olhar de Jota transmitia uma crueldade fora do comum:

- Você tinha que matar Aline, Porra! - A pegunta foi seguida de um soco no abdômen.. HUMMM! - O gemido de dor...
- Eu não a matei!! - Dorival gritava exasperado.
- Me fale do seu chefe seu bosta!- A raiva de Jota era tão forte que lágrimas saiam involuntariamente de seus olhos – Eu já não tinha parado a investigação?? POR QUE VOCÊ A MATOU VIADO FILHO DA PUTA???? - Um soco mais forte seguido de mais lágrimas... Dorival perdeu o ar... demorou dez segundos para ousar responder...
- Eu a amava! EU AMAVA! EU NÃO MATEI!!! - Seu grito foi calado por mais um soco...
- Simples então - Jota falou agora em tom sereno – Você está perdido, tenho tudo o que você fez. As transações ilegais para o deputado, o tráfico de drogas, o laudo do IML que mostra que você teve relações com a vítima... isso tudo já é consumado... você se fudeu! Mas, me fale de seu chefe...- Deu uma pausa enquanto olhava as lágrimas de dor do interrogado – Por onde ele recebe a mercadoria?
- Eu não sei de nada, Porra! Eu não matei ninguém! Nem lembro da noite com Aline! Sou inocente! Huhg!! - Mas um soco... agora sentia o gosto de sangue na boca.
- Rapaz! Dorival, parece que é a primeira vez que nos encontramos, você não me respeita não? Não sabe do que eu sou capaz? Estou te deixando só com as acusações leves... pense bem... Vou perguntar de novo, por onde o deputado Lima recebe as mercadorias?

Dorival olhou pra Jota, agora sem lágrimas e com uma feição cada vez mais cruel e disse com um olhar desafiador:

- No galpão 17 da Rua Chile – Olhou agora confiante – Você é um covarde, não vale o dinheiro que pagamos! Eu amava Aline! Nunca a mataria, mas você... HUGHH! - Um soco agora no rosto levou um dos seus dentes...

Jota olhou com calma, sabia que tinha perdido “a razão”, teria que explicar a falta de dentes para o chato do Patricio... Levantou o acusado e o levou em direção a sala do delegado... no meio do corredor disse ao ouvido de Dorival.

- Cuidado pra da próxima vez que você for tomar seu uísque eu colocar outra coisa pior que alucinógenos...

Jota sorriu internamente mantendo a postura enquanto ia entrando na sala de Patrício, contudo perdeu a tranquilidade quando viu Patrício seguido de Judith e Otávio

Martin Silva da Silva - Jorge José Jimenez "o Jota"

- Bom dia Seu Arlindo? Bom dia? – como não obteve resposta e viu o sempre enigmático Arlindo “da rua” sair como se ele não estivesse ali, Martin continuou seus afazeres.

O pior que eu nem culpo uma desgraça dessa, deve ter tido uma vida fudida cheia de loucuras e decepções. Ele viu algo que o assustou no jornal, será que foi a reportagem sobre Dorival, o assessor parlamentar que foi acusado de assassinato daquela jornalista? Hum... Que se dane! Não tenho nada com o “da rua”, nem com o assassino, nem muito menos com aquela gostosa. Vou seguir com minha vidinha, com Suzana, minha gordinha que me ama e Douglas meu filho querido.

[Ficou olhando o relógio que ganhou no último domingo, dia dos pais.]

- Ei... psiu... ei... EI! - chamava uma voz atrás do banheiro público – Martin olhou meio ressabiado.
- Eu quero um jornal – embora fosse muito cedo ainda, Martin vendeu normalmente, apesar da cena inusitada e daquele homem descabelado e maltrapilho ser muito estranho.

Mais estranho que o Arlindo, esse aí...
Puta merda! Nossa Senhora do Caralho a Quatro! Era ele!

[Martin olhou a foto no jornal e reconheceu o assessor foragido, embora mais barbado e mal tratado. Quando as pernas começaram a tremer e os neurônios ficaram perdidos sem saber quais sinapses fazer, tomou um susto com movimentos bruscos: eram dois homens, parecendo policiais, agarrando Dorival na porrada. Não demorou muito chegaram os carros da polícia.]

- Socorro... eu sou inocente... eles vão me matar – Os gritos foram abafados por um homem imponente que encarava Dorival com um ar de vitória.

Arlindo "da rua" - Martin Silva da Silva


Já tinha visto muita violência nesses últimos três dias, e não iria ver um dos poucos amigos enveredar pelo mesmo caminho... Deixou Romário em silêncio e seguiu para o beco em que descansava... embora tenha tomado meio litro de aguardente da pura, o cérebro ainda estava ansioso e andava em rotações elevadas. Sentou-se no beco, a noite já seguia alta, puxou o maço de cigarro com um sorriso no rosto. “Romário é um bom amigo” - pensou. Acendeu e tragou levemente... A mente ainda rodava quando encostou pra tirar um cochilo, o dia tinha sido dos difíceis e se não fosse pelo garoto nem a janta teria no estômago... Adormeceu...

[Seguravam suas mãos...
-Não! Não! Mãeeeeee!!!!
-Ele tá muito agressivo!! Aplique a injeção nele!!!
- Me larga! Me solta porra!!!!
Amarraram-no em uma cadeira de madeira... enfiaram-lhe alguma coisa na boca... Um tipo de capacete foi posto na cabeça...
- Pode ligar, agora ele fica melhor e calminho.
O choque elétrico começou a transpassar seu corpo
]

- Porra!!!! - Acordou todo suado e o coração a bater exasperado... Olhou para um lado e para outro...Não tinha sido real... Tentou recobrar a respiração... A claridade ia começando a despontar contra a escuridão... Acendeu outro cigarro e pôs-se a caminhar para esquecer o que era e o que não era real... Na esquina o jornal do dia estava sendo colocado na calçada... Chegou mais próximo...Leu a manchete e o coração bateu mais forte...

“ASSESSOR DE DEPUTADO ESTÁ FORAGIDO”

Fez menção de ler mais atentamente mas uma voz o interrompeu:

- Bom dia seu Arlindo – O conhecido jornaleiro saudava com alegria no trabalho.

Romário de Oliveira - Arlindo "da rua"


- Dona Rita? O que está acontecendo?

Percebeu algo estranho e logo em seguida apareceu um homem na sua frente, segurando Rita de Cássia no braço e apontando a arma para ele.

- Romarinho, cuidado! - veio o grito dos fundos.

Ele sem reação levantou as mãos, acostumado a ser "confundido" por bandido na rua pela polícia, esse gesto já era natural e automático ao olhar uma arma. Mas a mesma malandragem adquirida nas ruas, o fez perceber que aquela arma era de brinquedo e não hesitou em partir pra cima do criminoso. Rita de Cássia se afastou assustada e correu para o banheiro para socorrer Luquinhas. Os dois após se esmurrarem pelo chão, levantaram e se cercaram... foi quando o ladrão saiu correndo pela porta. Romário foi atrás na perseguição, gritando:

- Pega ladrão! Pega ladrão!

De repente o celular que acabara de comprar com o dinheiro ganho facilmente do Deputado caiu no chão. Ele parou, pegou e continuou a perseguição, mas em um ritmo mais lento. Agora corria pensando nas diversas vezes em que ele era o perseguido, quando sempre era "confundido" com um marginal na rua; pensando nos conselhos de sua mãe para ele evitar se envolver em encrencas, "pois meu fio sempre sobra pro preto"; pensando em Adelaide, "será que ela ficou bem?"... "Dica será a mãe do meu filho e eu vou mudar de vida"; pensando nos possíveis motivos que levaram aquele maltrapilho com uma arma de brinquedo tentar ganhar um dinheiro fácil, "será que foi um ato de desespero? será que ele tem uma Dica com um filho com fome a sua espera?"; pensando no gesto surreal daquele deputado, "cem reais? do nada? nunca vi disso... o que justifica esse desnível: de um lado um esnobe que sai distribuindo dinheiro para conseguir voto e de outro um qualquer que rouba pra sustentar um filho ou um vício?". Foi diminuindo os passos, pensando "quem eu estou perseguindo? quem me persegue agora?". Já havia percorrido uma grande distância, corria no automático, já sem propósito, quando foi segurado pelo braço, energicamente:

- Deixe ele ir.

Rita de Cássia Santos Pereira - Romário de Oliveira

Uma “saidinha bancária” e ela estava ali em sua própria casa indefesa sem poder gritar... Agora não era só a vida dela em jogo, mas a de seu filho também... [Maldito fim do mês!]... pensava entre a tentativa de ficar calma pra não assustar mais seu filho... Não tivera dinheiro, então foi forçada a ir em casa pra entregar o que de valor tivesse... não adiantou muito implorar.... Ali estava ela, mãe independente por escolha, sozinha, levando o perigo pra casa... se culpava... Não teve tempo de tentar apaziguar as coisas... Quando a babá voltou, de maneira abrupta e com um soco o assaltante pôs a babá e o pequeno lucas trancados no banheiro... Tudo se dava de maneira silenciosa e as lágrimas não mais escorriam... o desespero a petrificava... a frase - Quero dinheiro ou jóias senão você morre Puta! - já não ecoava por completo em sua mente que cambaleava suplicante por um fim do tormento... o soco acertara seu filho também e a imagem do sangue do rosto do garoto e da babá tapando a boca para que o pior não acontecesse causava uma náusea e uma vertigem que as pernas não haveriam de obedecer... o fim... o fim ela pedia com olhos secos e duros, agora de amargura... Batem na porta... O assaltante coloca-a em frente a porta, a mira e fala baixinho:

- Veja quem é.

Ela abre a porta e reconhece o namorado de sua babá:

- Oi Romário, o que você quer?
- Boa noite Dona Rita, eu vim buscar a Adelaide. Ela está? - Perguntou de forma cínica, sabendo que acabara de sair da casa.

Lucas Santos Pereira - Rita de Cássia Santos Pereira

Com aquele desprendimento característico que as crianças têm, Lucas foi brincar com seus Hot Wheels. Tinha uma imensa coleção desses carrinhos e várias pistas com aventuras que lhe prendiam horas e horas pela tarde. Ao mesmo tempo assistia Pica-pau na TV. Adelaide (a babá) era responsável por cuidar de Luquinhas até sua mãe chegar do trabalho. Quando ocorreu a ligação, a mãe chegava, ao mesmo tempo que Luquinhas deixava o telefone de lado e Adelaide colocava para fora pelos fundos da casa seu paquera, que hoje estava muito estranho.

- MAMÃE! - gritou largando o telefone e indo em direção à porta.

Lucas estudava pela manhã e ficava a tarde toda em casa brincando. Só via sua mãe a noite, quando essa chegava do trabalho. Ele era muito apegado a ela, até porque ela era toda sua família. Seu pai, ele nunca soube quem era e seus avós moravam em outro estado e nunca se preocuparam de visitá-lo. Esse momento da chegada da mãe era uma bagunça que só, ele pulava na mãe, beijando seu rosto e gritava muito de alegria.

Mas essa noite seria diferente e Lucas percebeu assim que avistou a mãe querida na companhia de um homem mal-encarado sujo e com uma arma apontada para cabeça da mãe.

- Mãe!? - falou com um medo, querendo entender direito o que acontecia.

Fabíola de Maria Lima - Lucas Santos Pereira


Ô povo mal educado... tô fazendo meu trabalho... Ai, ai deixa eu ver... hummm cinco minutos para as seis... [olhou atentamente para o anel dourado na mão direita] Pois é João... te amo tanto... que noite maravilhosa... noiva... deixa eu pensar na lua de mel... dinheiro pouco... vou pra Natal acho que é melhor.... ai, ai... ter minha casinha, meus filhos...

- O expediente não acabou Fabíola! E você nem cumpriu sua cota hoje! Tô de olho em você!
- Calma... tô procurando um nome na relação! - Fez uma careta depois que o supervisor passou.

Quatro minutos deixa eu fazer a última ligação... Depois que casar vou sumir dessa porra! Ô trabalhinho chato...

- Boa tarde senhor. Poderia falar com o proprietário da linha?
- Lô - Uma voz infantil atendeu do outro lado.
- Oi querido posso falar com sua mãe? - insistiu- Deve ter uns cinco anos - pensou.
- É o Lucas - A voz parecia não entender – Quem é?
- Sua mamãe querido... você pode chamar sua mãe?
- MAMÃE!!!! - Gritou.

[Desligou o telefone]... seis horas... é hora de ver meu amor.

Otávio da Cruz Madureira - Fabíola de Maria Lima


- Ju? Sou eu. Ele vai soltar uma nota à imprensa acusando o Val, teremos que executar o plano B. Reunião hoje a noite na casa de Saldanha - falou baixinho ao celular logo após a saída de Jota.

[no cemitério]

Oh, meu pai! Detesto cemitério, lugar estranho, cheio de vibrações negativas. Aliás, nunca entendi essa sacralização que o homem tem com o corpo. Morreu, morreu. Do pó ao pó. Para quê tanta festa, tantos rituais em cima de algo que não existe mais? E vem todo mundo de preto e fica esse chororô. Credo! Vou aproveitar e visitar o túmulo da minha ex-esposa, há tempos que não venho aqui.

[um minuto após ficar olhando o túmulo da ex-esposa com a frieza de quem olha um poste]

- E aí Jota tudo bem? Já passei a nota. Carlos e você, como vai? Opa Saldanha quanto tempo? Judith, cadê o Mário? Ah, já vi vou ali falar com ele... - chegou cumprimentando a todos os policiais presentes.

[de repente]


Chupa, chupa, chupa que é de uva... Chupa, chupa

- Alô, quem é? Não minha querida não quero comprar uma Juicer Walita. Obrigado e tchau! - desligou o celular com grosseria motivada pelo constrangimento.

Jorge José Jimenez "o Jota" - Otávio da Cruz Madureira


Passou por alguns colegas cumprimentando com um pequeno movimento de cabeça até entrar em sua sala.... Sorriu ao ver um documento em cima da mesa... Tinha chegado em um patamar muito alto na polícia pela sua competência em finalizar investigações, sua postura incisiva intimidava os colegas, acabou por fazer um sistema de liberações de ordens judiciais que agilizavam seus serviços... Mas essa investigação tinha um caráter intimamente pessoal...
Pegou um dos celulares... digitou a mensagem: “Suspende a medicação, já tá liberado!” e enviou para o único número na agenda...
Ligou o computador, e começou a digitar quando veio uma lembrança...


“- Line! Você não sabe quem são esses caras... Não é simples assim... - foi cortado.
- Você tem medo Jota? Logo você? Você tá envolvido nessa merda não é? - Disparou mais alto no rosto dele.
- Calma! – Voltou a seriedade – Você não sabe o que está falando...
- Posso não saber agora, mas vou descobrir! - Agora apontando o dedo...
- Embora você não acredite... eu me importo ainda com você! Podemos não estar juntos mas...”


O pensamento foi cortado com o grito feminino que vinha de fora:
- SÓ SAIO COM MINHA IRMÃ!


Terminou de digitar o documento e imprimiu, pegou a pistola colocou na cintura, pegou o celular da mesa quando a porta abriu:


- Jota, a viatura tá pronta pra ir no enterro da filha do Mário. - Falou o homem respeitosamente

- Tá certo! Entregue isso aos carniceiros da imprensa e depois me encontre no cemitério! - "Primeiro o assessor, depois o chefe!"... pensou expressando um olhar de vingança...


O homem pegou o documento e depois que Jota saiu abriu cuidadosamente e leu:


NOTA À IMPRENSA


Com o decorrer das investigações e o aparecimento de provas relacionadas ao assassinato de Aline Charlenne Graal o excelentíssimo juiz de direito Antônio Marcos Bandeira decretou a prisão preventiva de Dorival Queiroz de Albuquerque, amante da vítima, que encontra-se foragido. Reiteramos o empenho desta CP para elucidação do crime que chocou a nossa sociedade.

Bel. Jorge José Jimenez
Supervisor de Investigação – 1ª CP


Paulo José Carvalho - Jorge José Jimenez "o Jota"


Paulo sempre foi um homem prestativo. Assumiu desde adolescente a filosofia do fazer o bem sem ver a quem. Na verdade, andou repensando essa sua postura nos últimos anos, desde que começou a frequentar um psicanalista. A psicanálise lhe fez descobrir em si o que mais de horrível ele podia ver naqueles que nunca se prontificavam a ajudar (para ele, a pior espécie de gente). Pois bem, atualmente vivia nesse dilema, entre o seu eu ideal e seu ideal de eu. Quando soube da prisão de Anabela, deu um breve sorriso ainda sem jeito, querendo forjar uma satisfação e enquanto corria para avisar a Renata, não sabia se estava indo para ajudar ou para gozar de uma situação maléfica de um outro, como um bom sádico.

Sairam os dois correndo para delegacia e lá, Paulo, já estava envolvido com a situação, usando-se também de sua formação em direito, embora não pudesse advogar.

- Mas senhor delegado Patrício, não houve flagrante e ainda tem o desaparecimento suspeito daquele rapaz, como a senhorita Anabela pode ser a principal suspeita?

Quando o delegado iria responder, foi interrompido pelo voz grave e imponente de Jota, que tem o poder do respeito e faz parar qualquer conversa:

- Oh Patrício não esqueci daquele nosso papo de ontem não viu? Depois passo aqui - Saiu com o mesmo ar de desdém que entrou como se aquele pequeno caso policial não fosse digno de sua atenção.

Renata Salinas - Paulo José Carvalho


- Tem certeza que está tudo bem né?

Ok! Mais uma adolescente que deve estar grávida.... Mas Deus do céu, parece que todo mundo tá tendo alguma coisa nesses tempos... Tô aqui pregada, cansada, passar a noite cuidando do Maurício foi foda! O cara do nada surta e ainda por cima o médico disse que era estresse... Um absurdo! Aquilo é só porque eu não peguei ele de jeito pra desestressar [risos contidos]...

[Limpou as três mesas vazias, viu a garota do banheiro sair com os olhos cheios de lágrimas e voltou para o balcão]

Essa aí tá grávida e tá desesperada! Essa sorte eu não tenho de prender Maurício! [outro riso contido]

[Separou o material de trabalho, a caneta no bolso, quando de repente viu seu vizinho chegando esbaforido]

- Renata!! - ofegante – Você tem que vir comigo! Prenderam sua irmã! Disseram que ela pegou dinheiro da Cafeteria!!!

Clarissa Silva Alves - Renata Salinas

[Continuou andando, ignorando-o]

Mais um retardado que tenta me iludir que sou bela ou essas coisas. Estou farta dessa conspiração que armaram para mim. São meus pais, meus amigos, meus professores... Gente! Estou goooorda, goooooorda, goooooooooooorda! Por que não me apelidam de baleia assassina ou qualquer coisa do gênero? Por que eles preferem não enxergar a absurda aparência que monstruosamente se expande? Minhas roupas não cabem mais em mim, nem meu espelho consegue me pegar totalmente. Transbordo ansiedade... Ai...

[Entrou na primeira espelunca que viu e foi direto ao banheiro, vomitou tudo que não tinha no estômago e quando estava lá exasperada com o dedo na garganta...]

- Ei garota o que está fazendo aí? Você está passando mal?

Romário de Oliveira - Clarissa Silva Alves

Depois de correr e de se livrar dos amigos... pegou a primeira avenida principal para realizar seu objetivo... Aquele celular que permitiria entrar em contato com Adelaide... Ser pobre era dificil... pegar uma gatinha até que dava conta, mas não ter como prosseguir por não ter um telefone privado..."É foda!"... Adelaide já o questionara várias vezes perguntando se ela podia ligar...

"- Sabe gata! O telefone lá caiu e tá com defeito! Mas semana que vem já tá melhor!"

Continuou agoniado, olhando sempre pra trás... "Tenho que despistar o Ti e o Jonas!"... virou para atravessar a rua quando viu aquela menina linda... parou aturdido... Olhos azuis, cabelos pretos no ombro, leves sardas no rosto róseo, corpo perfeitamente provido nos seus 1,59m, um sorriso desafiador... Ficou parado observando e não percebeu que estava obstruindo a passagem para a moça...

- Você quer dar licença? Por favor! - Disse a moça sem o sorriso anterior.

Dep. Geraldo Lima - Romário de Oliveira


[Após um tedioso evento social, de se lambusar todo pelo resto da madrugada com Ângela e de dormir até o meio-dia, o deputado vai no seu carro visitar suas filhas que moram com sua ex-mulher]

A vida é engraçada, aqueles micos de circo pensam que são mais importantes que eu. Tudo bem, dependo deles para conseguir me eleger, mas assim que ganho a eleição o jogo vira e eles vão comer na minha mão. [risos] E aquela mulher do Silveira, que monstro... [risos]. Não consigo acreditar como as pessoas conseguem se boicotar dessa forma, que penteado esdrúxulo, não sei como um cara chega em casa e consegue comer uma mulher daquela [risos]. Já ia me esquecendo preciso saber como ficou o esquema do ônibus para as crianças daquela escola e a incompetente da Rita que não me ligou mais para falar das quentinhas... aquela energúmena não nasceu para isso. Pensando bem, irei trocar de puta, a Ângela não me satisfez essa noite. Puta não pode ter cara de preocupada. Nossa mãe! Em falar em preocupação, tenho que comprar o presente da falecida. Ex-mulher é outra âncora que deveria ser instinta.

- Juvenal, o que você deu para sua esposa no último aniversário dela? - perguntou ao seu motorista, enquanto esse parava o carro em um semáforo.

[Se aproximam uns jovens ao redor do carro, antes de Juvenal responder, o deputado abre a janela]

- Ei garoto, quantos anos você tem? 17? Que maravilha! Vai votar esse ano? Votar garoto, sabe que é isso não? E você aí, tem quantos anos? Vai votar? Hummm... toma um trocado para vocês beberem um refrigerante...

[O semáforo abriu, o carro saiu, a janela foi fechada e Romário ficou olhando aquela nota de cem grampeada num santinho com a cara do deputado, enquanto seus colegas se esmurravam em sua volta]

Marie Tissou (Ângela Souza) - Dep. Geraldo Lima


Cinquenta minutos gastos e os R$ 300,00 no bolso. A vida de Ângela era essa na parte da noite... se tornara vantajoso e dava uma garantia fantástica para terminar a faculdade. Os mimos em francês colocados como um agrado quando lidava com lésbicas, geralmente mais carinhosas, ajudava na formulação do ambiente fantasioso. Contudo os últimos dias tinham sido incertos... recebera cerca de vinte chamadas de ameaça de morte... andava tensa e agora diminuía os programas com medo de ser seu persecutor... já tinha pensado em muitos ex-clientes, mas nunca conseguia identificar a voz daquele homem... A última vez tinha sido a duas horas atrás:

"- Eu já sei seu verdadeiro nome Ângela! Sei o que você esconde! - A voz sarcástica falava!
- Quem é? Pare de me perseguir! Vou chamar a polícia seu porco! - Trêmula tentava ser agressiva e destemida.
- Polícia? Você não é louca! Eu sei que crime você cometeu sua Puta! - A voz gritava ameaçadora.
- Me deixe em paz! - Desligou o celular se recompondo no banheiro."

O telefone toca cortando essa lembrança... o coração palpita mais forte, mas o número é velho conhecido e um sorriso lhe vem a face.

- Alô!... sim senhor deputado...estarei aí em meia hora... beijo! - Desligou com o sorriso... às quatro da manhã ela pegaria o seu melhor cliente e somaria mais R$ 400,00...

Judith P. Alves - Marie Tissou


- Tomara que João tenha salvado aquela garota. Que doideira! Que dia louco esse meu, não gosto de voltar para casa assim... muitas coisas ainda em aberto... ou esse João mente bem ou ele não sabe de nada mesmo... Não queria, mas vou precisar ter um tete-a-tete com o Jota... Chegando em casa vou relaxar... Atenção miss Judith, desativar! [risos] - Voltou no carro falando consigo mesma.

E ela desativava mesmo. Judith sempre foi uma mulher independente. Saiu de casa cedo e aproveitou as boas condições econômicas de sua família para cultivar sua vida ideal. Sempre foi apaixonada por filmes de detetive e suspense e por esse motivo entrou para a carreira policial por prazer. Entre uma namorada e outra e entre uma investigação e outra, ela vivia sua liberdade de escolha. Mas tinha outras paixões que não deixava de mão e por isso inventou o "Atenção miss Judith, desativar!". Quando chegava em casa a noite, ela queria aproveitar seus prazeres.

Colocou um vinil raríssimo de John Coltrane, preparou um escocês de 21 anos e deitou-se na banheira. Após um longo tempo, quando a madrugada já ia de longe e quando ela já tinha tomado suas religiosas cinco doses e escutado várias vezes o mesmo vinil, entrou em seu blog secreto e escreveu mais um poesia erótica. Ficou ainda mais um tempinho em chats eróticos, mas se danou...

- Sabe de uma? - Indagou-se pegando o telefone.
- Alô, me manda uma de primeiríssima qualidade, ruiva e bem nova...

Depois de meia hora:

- Bonne nuit ma chère!

Silvia Cavalcanti - Judith P. Alves


Desligou o celular... as lágrimas continuavam a cair... “Vou acabar com isso”... Pegou o frasco do remédio que teve conhecimento em uma reportagem de jornal... ”Não posso ficar aqui! Meu pai deve estar correndo pra cá! Preciso de tempo para o remédio fazer efeito!”... Pegou o remédio e saiu do prédio com uma pressa angustiada... Com o rosto banhado em lágrimas alcançou a praça... Morava em um bairro central, mas mesmo assim a madrugada mostrava a praça como um local aterrador... “A praça que mamãe me trazia.”... Chorava impacientemente... Correu para o canteiro central da praça... sentou... pegou a vasilha do remédio... colocou umas 20 pílulas na mão... “Tudo pronto!”... lembrou de deixar a carta para o pai... deixou no celular em casa uma dúzia de fotos do dia... “Agora vou te ver mãe!”... Mastigou e tomou os comprimidos como se fossem balas... Limpou as lágrimas... olhou para frente e quase que desmaiava pelo choque. A mulher do outro lado da fonte que conversava com o rapaz era a sua mãe... ”Não pode ser!”... Alta, cabelos loiros... embora estivesse na noite só podia ser sua mãe... observou mais uns vinte segundos e levantou para ir de encontro a sua mãe:

- Mãe! Mãe! Eu te amo! – As pernas lhe faltaram e caiu...
- Mãe! Mãe!- As palavras estavam sendo sussurradas...

- Me ajude aqui João! A menina tá passando mal! – Gritou para o homem com quem conversava anteriormente.

Mário Cavalcanti - Silvia Cavalcanti


Embora mantivesse a postura habitual em seu trabalho, Mário voltou no camburão olhando pela janela a paisagem das ruas à noite, às luzes que iam e vinham. Seu parceiro até percebeu e perguntou se havia alguma coisa o preocupando, se havia sido o telefonema de Jota mais cedo, mas Mário se recompôs e disse que estava bem. O que lhe preocupava era sua filha de 15 anos, que já algum tempo não aceitava a morte da mãe e vinha demonstrando um comportamento rebelde e depressivo ao mesmo tempo. Pela manhã havia encontrado seu diário com um plano de suicídio, brigaram e nesse momento Mário lembrava da discussão:

"- Filha, você não me ama? - perguntava ele no auge dos seus 47 anos em prantos.
- Não é isso pai, não é isso pai... não... - uma menina de 15 anos maquiada ao extremo as 07:00 h da manhã.
- Então me explica isso... me explica que não consigo entender..."

- Mário, vamos entregar essa carne aí para o comando lá do Morro da Redenção?

Antes de Mário responder, seu telefone toca, era sua filha:

- Paizinho, desculpa, mas não dá mais... adeus... te amo muito viu? - Silvia com uma voz de um cético ancião.

"Chupa-cabra" - Mário Cavalcanti


Tudo fluiu naturalmente... Uma limpa tranquila... Considerou até engraçada a cara da tiazinha... Largou no ponto seguinte e desceu a ladeira da favela de Santo Antônio... Agora era contabilizar os ganhos e pagar ao Bode a parte que tava devendo...
O sorriso foi desfeito ao escutar os sons da sirene da polícia... “Fudeu!!!”... Correu pelas bocadas que conhecia... deixou o produto escondido em um poste já utilizado... As pernas respondiam a toda força... virou a esquina... faltava 100 metros pra pegar o mato que dava na BR...

- Parado Filha da Puta!! Ou vai virar peneira!
- Fiz nada não senhor! Sou trabalhador!
- Calado seu merda! Deitadinho! Mão na Cabeça Porra!!!

O corpo exaurido respondeu... Ali, naquele momento, obedecer era vida... No rádio o policial comunicava enquanto chutava as costelas do jovem:

- Elemento pego senhor! Vai chegar na DP todo molinho!

Maria de Fátima Lima - "Chupa-cabra"

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAÃOOOOOOOOOOOO! - Respondeu ainda mais grosseiramente.

Jesus, perdoai esta alma. Esse mundo está perdido, eu tenho que continuar minha missão. São 23h, acho que por hoje já cumpri minha cota de pregação. Ai, meu Jesus, que amanhã o Senhor me ilumine ainda mais para eu poder levar a Sua luz nas casas de família deste mundo. Ai, o último ônibus, tenho que pegar...

- Boa noite cobrador, Jesus te ama!

Vou sentar aqui perto do cobrador pois essas viagens da noite são sempre perigosas. "Do ponto de luz na mente de Deus, flua luz às mentes dos homens; que a luz desça à terra. Do ponto de amor no coração de Deus, flua amor aos corações dos homens; que o Cristo volte à terra...". Ai... Ai... não... Jesus!

- A casa caiu... Isso é um assalto... Aí tiazinha, não esconde a bolsa.

Dorival Queiroz de Albuquerque - Maria de Fátima Lima


Deixou o orelhão correndo... a noite começava tenebrosa... Os pensamentos não paravam um minuto sequer... "Meu Deus! Estou perdido!"... O desespero foi tomando forma e ele apressou o passo para subir a seu apartamento... "Aline! Aline! Meu Deus! Eu falei pra você não começar essa reportagem!"... o desespero foi ficando maior e as lágrimas desciam enquanto subia as escadas... Abriu a porta apressadamente... Tirou a camisa e os sapatos pela sala... "Aquele porra deve ter me seguido aqui!"... Correu para o quarto... Assustou-se:

- Que merda!!! Filhos da Puta! Mexeram em meu quarto! - Verificou uma caixa escondida na roupa suja do banheiro.
- Minha beleza, você está aqui! - Retirou um frasco enegrecido e uma arma 38.

"Quero ver agora!". Colocou a arma na cintura. Pegou um copo e encheu de uísque. "Meu Deus! Eu não a matei! O que foi que aconteceu ontem? Porra de boite! Porra!!". Virou o primeiro copo e partiu para o segundo. Olhava para a porta esperando a invasão... A arma carregada na mão e o corpo trêmulo... "Eu não vou perder minha vida!!!"... "Eu pego eles antes"... A sirene tocou... correu com a arma na mão... olhou pela fresta: Uma mulher. Abriu devagar escondendo a arma atrás das costas:

- Que foi! - Agiu grosseiramente
-Boa noite senhor! Gostaria de falar da palavra de Deus para o Senhor. O Senhor tem um minuto? - Sorriu com um misto de feição programada e medo do rosto apavorante do outro lado!

Lívia Pereira - Dorival Queiroz de Albuquerque


Mais tarde, Lívia atende a última ocorrência de seu expediente:

- SAMU 192, em que posso ajudar?
- Minha vida chegou ao fim, estou te ligando para falar o motivo da minha morte...
- Senhor, como se chama? Por favor fique calmo que eu irei ajudá-lo.
- Meu nome não interessa... eu não a matei... eu não a matei... ESCUTE SUA PUTA: EU NÃO A MATEI!
- Senhor, por favor vamos manter a calma para que eu possa ajudá-lo, como se chama e de onde o senhor fala?
- Eu estava... - começa a chorar.
- Senhor...
- PERAÍ SUA PUTA.... deixa eu falar, deixa eu falar...
- André temos uma ocorrência de possível suicídio - falou baixinho com a mão no microfone com seu colega de trabalho.
- Escute bem o que vou falar: quem matou Aline Charlenne Graal foi um detetive da polícia chamado Jorge José Jimenez, conhecido como Jota, ele tem um esquema de tráfico de drogas velado dentro da polícia e ela ficou sabendo e estava o investigando... acontece que ele descobriu e mandou executá-la... o corpo está nu guardado em uma geladeira do Departamento de Polícia... ele está armando para me acusar, colocou capangas para me seguir 24h por dia, eles perseguem meu sono, meus pesadelos, minha manhã... ele contratou um monstro de três cabeças que me atormenta, ele sai de qualquer copo d'água que eu toco através das minhas impressões digitais... e ainda tem as moscas com as câmeras escondidas... e... ainda aqueles que roubam minhas lembranças aos poucos...
- Senhor... - Lívia interrompe.
- CALA BOCA! CALA BOCA... deixa eu terminar, vocês precisam prender o Jota e sua gang... como é seu nome sua vaca?
- Meu nome é Lívia senhor e preciso que o senhor me respeite...
- Lívia? CLARO... VOCÊ É UM DELES... MALDITOS SEJAM VOCÊS TODOS!

Dorival desliga e sai correndo...

Juan García Avellaneda - Lívia Pereira


Olhou para o estado do rapaz... atentou para os exames preliminares... verificou o pulso... batia lentamente... "Esse muchacho estais sem comer provavelmente!"...

- Yo preciso de um poquito de espaço aqui!! - Gritou para a multidão.

Fez o procedimento necessário e pensou "Pronto voy ligar pra emergência e tudo hecho, acabo de me atrasar pra mirar Rosa... Humm, ella debe tá sem roupa esperandome!"... soltou um sorriso não condizente com a situação... percebeu... concentrou-se no celular...

- Hola! Tengo una emergencia aqui


Maurício Oliveira Santos - Juan García Avellaneda


Embora tivesse uma resposta que exigia de si uma posição, por ter sido cobrado de ausência no namoro, Maurício saiu mecanicamente, como se pergunta e resposta fossem um exercício de praxe. Aliás, há algum tempo que ele vivia em stand by. Trabalho, família, Renata, amigos, vizinhos e seus afazeres cotidianos eram cumpridos com uma certa risca, mas de forma automática e embotada. Ninguém percebia que Maurício cada vez mais estava sendo sugado para dentro de suas reflexões. E hoje pela manhã havia sido um dia decisivo nesse processo. Não foi trabalhar, quando ligaram acusou uma doença sem ao menos explicar qual e quando viu as ligações de Renata ficou atônito olhando o nome dela no visor do celular. Decidiu sair e caminhar na rua com um olhar em direção a um amanhã distante. No momento que encontrou Anabela, reagiu automaticamente, como se algum resquício de seu período transitório ainda insistisse em se manifestar, mas tão logo que obteve uma resposta voltou ao seu presente estado de estupor e embotamento afetivo. Continuou caminhando por toda tarde, a essa altura já havia esquecido o celular em cima de um banco na praça (o que lhe impediu de saber das 11 ligações de Renata, 3 da mãe, 5 dos seus 3 irmãos, 2 do colega de trabalho e mais algumas dos diversos estabelecimentos onde divídas se acumulavam, pois há algum tempo não pagava suas contas). No entardecer, seguia chutando um lata pela rua, na verdade estava mais sendo arrastado pela lata que seguia a frente, com uma atenção distraída, que andava propriamente. Quando de repente deixou seu corpo cair... logo uma multidão se formou no centro da cidade.

- Apartense, yo soy médico! - Interviu um homem de cabelos grisalhos, com um portuñol rasgado.

Anabela Salinas – Maurício Oliveira Santos


- Como é trabalhar no caixa?
- É!
- Normal! Estressante como todo trabalho! - sorriu desanimada. - Você quer ficar um tempinho aqui pra ver como é?
- Claro! Pode ser!
- Eu vou dar uma voltinha – E foi saindo velozmente...

Vou aproveitar pra dar uma escapulida e comprar absorvente e um remédio pra dor... a cólica não me deixa em paz... O remédio que Renata me indicou não presta pra nada! Deixa eu andar rápido, aquele marginalzinho vai dar um quebra na loja. Pouco me importa! Quero acabar com essa porra! Um sedativo, uma droga bem forte, uma operação pra tirar o útero! Que dor!

-Ai! Que cólica da porra!!! - Falou alto pra si em desabafo.

Humm, deixa eu ver aqui nessa Farmácia da esquina.

- Ane!!!
- Quem é agora? - Pensou com raiva quase sussurrando.
- Oi Ane! Você tem notícias de Renata? Ela me ligou a manhã inteira ela está bem?

Danillo Ferreira - Anabela Salinas


- Aqui senhor.
- Vadia - falou baixinho pra si mesmo.
- Flor, segura aqui para mim, vou fumar umzinho ali fora.

Tenho que sair dessa com sabedoria. Se eu vender meu ipod tiro uma grana boa pra cobrir esse furo. Mas quem compraria? E minha mãe vai logo querer saber o motivo da venda e vai falar pra porra! Só se eu pegar emprestado. Mas quem? Foda! Estou devendo a tanta gente. Cruzes Danillo, que roubada, hein!? Eita mundo injusto para um garoto de 17, dependente de pais e de um pózinho do bom.

- DANILLO! Porra brother, ajuda aí, a casa tá cheia! - Gritou Flor, se equilibrando entre as cadeiras e as bandejas.

A casa tá cheia? A casa tá cheia! A casa tá cheia! A ca-sa tá cheia de gra-na. Cada café desse custa o olho da cara e tem as tortas e os charutos cubanos, deve ter o suficiente no caixa. Pego tudo e vazo. Não! Muito suspeito. Preciso de uma cumplice, se a Florzinha não fosse tão caxias.

- Ane, como é trabalhar no caixa?

Judith P. Alves - Danillo Ferreira


Até que enfim dei um basta nessa louca... Quem ela pensa que é? Minha dona? Agora é desligar o celular e não responder os clamores. Tenho coisa melhor para me preocupar... Tenho que ver como eu pego essa investigação do Jota... Aquela mulher morta sem roupa não sai de minha cabeça... como Jota pegou esse caso? Já deve ter botado um dos seus capangas pra vigiar o namorado dela... Mas não me parece assim tão simples...

- Humm, aquela mulher – Falou alto... lembrava aquela morena gostosa da Tamires Souza... Deixa eu parar de pensar besteira... deixa eu tomar um café aqui.
- Garoto! Me dá um expresso!
- Um momento senhora, estou atendendo aquele senhor. Logo, volto aqui!
- Então deixe! Vou esperar não! Tenho coisas a fazer! Que lerdeza!!!

Rita Menezes - Judith P. Alves


- Seu João, pode me deixar em casa, por hoje já basta! - Saiu na van, enviando uma mensagem no celular:

"Estou farta, amor, disso tudo, já não vejo a hora de mandar aquele demônio tomar no rabinho dele. De noite tem japonês, não demore!"

Chegando em casa tirou a roupa e foi tomar um banho relaxante. No play: Nelson Gonçalves. Rita trabalhava para o deputado há pouco menos de um mês, mas foi tempo suficiente para perceber que não havia nascido para isso. Foi trabalhar quando iniciaram as campanhas eleitorais, achou que era um dinheiro extra fácil. Ela tinha um histórico de uma média de um emprego a cada dois meses, sempre terminava com a famosa frase "não nasci para isso".

- Ah! Droga de vida! Não nasci para isso! - No chuveiro, gritava.

Sentou na cama com sua caixa de remédios, estava na hora de tomar os brancos com os amarelos e daqui a pouco tinha que tomar os verdes com os amarelos e os vermelhos-e-brancos. Mas metendo a mão já trêmula na bolsa, viu que Judith (sua namorada) havia respondido:

"Não vai ter japonês, não vai ter noite, não vai ter mais nada. Tou caindo fora! Bye baby!"

Arlindo "da rua" - Rita Menezes


Meio sonolento e de ressaca com aquela mistura estranha de bebida da madrugada, percebeu alguém chamando mas não conseguiu ter forças para responder... O pensamento em mil diferentes coisas, mas com a velocidade da tartaruga só conseguia repousar em pensar no horário da “quentinha”. “Essa comida que não chega!!”. Vagueou seu olhar na rua, já estava na hora... “Que atraso é esse? Eu já estou com a barriga colando!”... Futucou seus pertences e tirou uma bituca de cigarro da noite anterior... acendeu... pensou no tempo que podia comprar um maço... Depois que começou a ser perseguido, correr perigo... fugiu e nunca mais voltou pra casa... Nem lembrava mais onde morava... “Ai, ai essa vontade de mijar! Mas é só eu sair daqui a quentinha chega!”... pensou irritado... Vinte minutos depois a van pára... “Que bom que ela veio”.

- Seu Arlindo, Boa tarde, tá aqui sua quentinha – Disse a senhora.
- Obrigado Dona Rita – Pegou apressadamente.
- E o senhor como vai? - Questionou sondando a aparência de Arlindo.
- Tudo bem... Só esses meninos que vem fumar pra cá, todo dia eles me aprontam uma – Com a boca cheia de farinha.
- Então tá! Tchauzinho!... Ah! Lembre-se que é o Deputado Geraldo que manda essas quentinhas pra você! – Saiu apressada para a van.

João Augusto Souza Viana - Arlindo "da rua"


- Opa! Demorei de ligar porque tinha uma desocupada aqui no telefone público. Tudo em cima, ele passou aqui a pouco, estava estranho, com um olhar perdido, entrou em um bar... espere, ele está saindo, vou desligar.

Eu não posso perdê-lo, mas como esse cabra anda rápido e incerto. Onde será que estamos indo? Deveria ser proibido andar assim a esmo por uma cidade tão conturbada. [risos consigo mesmo] Se fosse proibido, eu certamente seria preso por diversas vezes. Nem ao menos sei o motivo pelo qual estou seguindo esse cidadão, não sei o que ele fez, não sei o que ele é capaz de fazer. Não sei para onde vai, nem sei onde estou. Mas... uff! Preciso dessa grana, preciso não voltar àquele estado deplorável que cheguei. Perdi muito. E ademais, meu livro irá sair muito caro. Ops!

- Desculpa senhor, não o vi... a propósito, que bairro é esse? Senhor? Senhor? SENHOR?

Só tem maluco nesse mundo. O olhar deste senhor é mais sombrio do que o do meu alvo de perseguição, que inclusive adiantou os passos, tenho que correr.

Renata Salinas - João Augusto Souza Viana


Já se acostumou com os palavrões... era seu dia a dia... Cada sujeito que aparecia nessa espelunca...

- Sim senhor está aí – Nem olhou para o rosto de mais um infeliz que se perdia no álcool.

Dia cheio, toda quinta-feira é assim, os sem o que fazer enchem a cara desde cedo... Mas isso não importava... As horas não passavam e a noite ela ia se encontrar com Maurício... Tinha comprado aquela renda nova pra impressionar na primeira vez... Era uma boa cartada, ela já trintando, precisava se encostar em alguém e Maurício servia pra isso... trabalhador, supervisor de supermercado... Com certeza ela iria se casar com ele, precisava sair daquele lugar, precisava mudar de rumo... Bateu a saudade e pensou: “Vou ligar pra ele”.
Pegou o cartão telefônico e saiu rapidinho do bar para usar o telefone público na rua. Ansiosamente e com um sorriso no rosto se pôs a discar...

- O que é isso? Ele não atende.

Foram-se mais três tentativas... nada, passou pra quarta, quinta... a fila começou a se formar...

- O que aquele Filha da P... tá pensando? Pensa que já é assim me traindo e não atendendo o telefone?
- Moça preciso usar o telefone... se puder adiantar...
- Já vai! - Mais uma tentativa e nada... O sorriso sumira do rosto.
- Moça por favor!
- Engole essa Porra!

Dorival Queiroz de Albuquerque - Renata Salinas


- Desculpa, o caralho! Vá esbarrar em outro, seu filha-da-puta!

Malditos sejam aqueles que não olham para onde andam. Malditos sejam os que não sabem para onde vão. Malditos sejam todos os humanos. Droga, droga, droga, que inferno de Vida. Fiquei ontem a noite pensando milhares de coisas, que sequer lembro agora. Minha cabeça não consegue parar. E aquele merda do Antônio, infeliz que me liga para me acusar de um crime que não cometi. Preciso sentar, preciso olhar para o rosto de alguém, preciso de um espelho. Vou tomar uma quente naquela espelunca.

- Um conhaque.

Que banheiro imundo. Maldito seja Antônio. Malditos aqueles que fazem literatura obscena em banheiros públicos. Estou ficando velho. Essas rugas não estavam em mim anteontem.

- Eu não a matei! Eu a amava!

Conhaque vagabundo, vai me fazer mal. E que salame é esse? Verde? Maldita espelunca e maldita garçonete de quinta.

- Ei, sua puta!