sexta-feira, 14 de maio de 2010

Marcela Araújo - Antonio Bruccatto

Estava ali, sentada insolenemente na calçada da Rue Toullier, Paris, lendo um exemplar d'Os Cardernos de Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke. Mas daquela vez era diferente. Já tinha três anos que resolveu levar essa vida de personagem. Com essa, já tinha ido a São Petersburgo com Dostoiévski, à Buenos Aires com Jorge Luís Borges, à aldeias portuguesas com Saramago, ruelas do Vaticano, becos no Paquistão, mares tortuosos no oceano pacífico, entre outros tantos lugares com outros tantos autores. Mas daquela vez era diferente. Sentia pela primeira vez o eco da pergunta que sempre ouvia a noite soar durante o dia. Manhã clara parisiense: "Onde as personagens das personagens se encontrarão?". Para espantar esta questão angustiante, abriu a mente para lembrar de outra tragédia que há muito evitava pensar - o assassinato de sua tia/mãe. Sozinha no mundo, diante dos outros - lembrava de Cortázar e de suas aventuras em Washington. Mas todo aquele turbilhão de questões, lembranças e sentimentos reprimidos precisam ser objetivados. Três anos sem mandar qualquer notícia para parentes, amigos... marido... absurdo! Não tinha mais sentido, nunca ouve. Vazio. Levanta, anda mais algumas quadras e vai a um telefone público. Curiosamente tinha um télécarte, o utilizava naquele instante como marcador de páginas. A manhã ficava cada vez mais clara. O sol rompeu sobre seus olhos quando leu no Le monde que hoje era 14 avril 2010, "sept heures" - respondeu o jornaleiro a ela. Não tinha nem noção de fuso horário. Ligou, simultaneamente quando pensou que as personagens das personagens se encontrarão em sua casa, deveriam estar todas esperando-a lá. Tinha que correr. Por isso ela nunca as encontrava onde os livros descreviam. Tudo começou a fazer sentido...

- Alô, João, é a Marcela, você ainda me ama? Desculpa...

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