
Enfermeira por necessidade, escritora marginal por impulso e freqüentadora assídua do "Barco Verde" por solidão. Era sempre assim: acabou o plantão?
- Green Boat, here i come.
E lá sempre tomava seu dry martini sossegada no canto esquerdo do balcão. Ficava lembrando de suas pacientes e quando percebia que já misturava paciente com personagem, ia para seu apartamento, escrevia um pouco e dormia. Iam-se meses nessa rotina hospital-martini-literatura-sonhos-hospital, desde quando resolveu finalmente morar sozinha e sair da tutela ditatorial de sua mãe e seu "homem" (fuck you!). Mas às vezes (por diversas vezes) a rotina se misturava e Fernanda era pega lendo para pacientes, fazendo curativos em garçons ou mesmo bebendo na cama...
- Martini is the work of God - arranhava seu inglês, rindo e levantando a taça para brindar com a imagem de Santa Ágata que tinha numa moldura.
Evidentemente que a imagem daquela jovem de 30 anos vestida de branco naquele bar, freqüentado por transeuntes inimagináveis do boêmio bairro do Barris, não passava desapercebida. O garçom já a conhecia, mas o público rotativo (na sua maioria, homens) não e sempre a perturbavam, mesmo que fosse somente com os olhares.
Naquele dia, Fernanda saiu do plantão às 22h e foi tomar seu dry martini, com a estória de Jéssica na cabeça, uma menina que aprendeu a voar para encontrar Deus e pedir explicações. Na quinta dose:
- Olá, meu nome é Jéssica, estava ali te admirando e resolvi ousar, trouxe uma dose para bebermos juntas, posso?
Fernanda não sabia se estava sonhando, escrevendo ou no "Barco Verde" e tomou a dose de "boa noite cinderela".
0 comentários:
Postar um comentário